Hello, Hello!
Onde a criação de valor realmente acontece em venture capital
Uma leitura sobre padrões, estrutura e o que define retorno ao longo dos ciclos
Com alguma frequência, me perguntam como olhar para venture capital hoje. Não apenas do ponto de vista de acesso, mas de entendimento. Como navegar a classe de ativos, como construir repertório e como ler ciclos que não seguem uma lógica linear, especialmente para quem está fora da indústria. Essa série nasce dessas conversas, como uma forma de organizar o que penso sobre venture capital hoje, a partir da trajetória que me trouxe até aqui e das camadas que se sobreporam ao longo do tempo. ![]()
Se me perguntarem qual foi o principal aprendizado que tive depois de duas décadas navegando pelo venture capital, analisando milhares de empresas, investindo em mais de 50 delas e acompanhando de perto a trajetória que vai do seed ao exit, posso dizer, sem hesitar, que ele está na leitura dos padrões que se repetem ao longo dos ciclos. Muitos poderiam apontar para os erros ou para os acertos como as maiores fontes de aprendizado, mas o que realmente amplia a visão é a capacidade de observar além do evento isolado e reconhecer as estruturas que sustentam ou limitam a criação de valor ao longo do tempo. ![]()
Essa percepção foi sendo construída na prática, a partir da convivência com empresas que, mesmo com fundadores excepcionais e propostas consistentes, não encontraram o contexto necessário para avançar, e de outras que prosperaram a partir de uma combinação mais ampla entre timing, acesso, capital e inserção em ecossistemas mais densos. Com o tempo, fica evidente que venture capital vai além da identificação de bons ativos, mas sim de entender onde esses ativos estão posicionados em períodos maiores de tecnologia, liquidez e adoção, e como esses ciclos se conectam entre si. ![]()
Três estilos de relógio no mundo quântico
Quando esse olhar é aplicado à indústria como um todo, os dados começam a revelar uma dinâmica que não é imediatamente intuitiva. Uma parte relevante da criação de valor em venture capital não está concentrada nas gestoras maiores ou mais conhecidas. Estudos da Cambridge Associates mostram que cerca de 72% das gestoras com melhor desempenho ao longo do tempo estão entre fundos em seus primeiros ciclos, tipicamente entre o Fundo I e o Fundo IV, e ainda assim essas gestoras, que correspondem a 16% de todos os fundos, recebem uma parcela significativamente menor do capital total disponível.
Esse padrão se repete quando analisamos o tamanho dos veículos com estruturas menores, apresentando retornos médios superiores e maior dispersão positiva nos múltiplos, enquanto fundos maiores tendem a operar com perfis mais próximos de outras classes de ativos líquidas. ![]()
Dados da Preqin reforçam essa leitura ao indicar que fundos de primeira geração, em determinados vintages, superam consistentemente os gestores estabelecidos em termos de retorno líquido. Ao observar essas informações em conjunto, o ponto é estrutural, muito mais do que estatístico. Existe uma diferença relevante entre onde o capital se concentra e onde tendem a surgir os retornos mais assimétricos, e essa diferença decorre da forma como a indústria foi organizada ao longo do tempo. ![]()
Nos Estados Unidos, a maior parte do capital que financia venture capital vem de investidores institucionais, como endowments, fundos de pensão, fundações e grandes organizações que administram volumes muito relevantes de recursos. Para esses investidores, a decisão de alocação envolve não apenas retorno esperado, mas também escala, eficiência operacional e governança. Um endowment com dezenas de bilhões de dólares, ao destinar uma parcela para venture capital, precisa alocar tickets significativos, o que torna complexa, em termos operacionais, a construção de portfólios com múltiplos gestores menores. Como consequência, o capital se concentra em fundos maiores, que conseguem absorver volumes mais elevados com maior eficiência operacional.
Esse movimento cria uma dinâmica bastante específica, em que o capital flui de forma consistente para estruturas que oferecem escala, enquanto uma parte relevante da criação de valor permanece concentrada em segmentos que, por natureza, têm menor capacidade de absorção de capital. O resultado não é uma distorção simples, mas um desalinhamento estrutural entre onde o capital está e onde os retornos mais assimétricos tendem a se formar, e compreender essa dinâmica muda profundamente a forma de olhar para o venture capital. ![]()
Na próxima semana, seguimos essa análise a partir de outro ângulo. Se, nos Estados Unidos, essa estrutura é sustentada por instituições, o que acontece quando olhamos para um mercado em que o capital vem majoritariamente de famílias, com objetivos, horizontes e expectativas diferentes? É nesse contraste que começa a aparecer uma das camadas mais importantes para entender como o venture capital evolui no Brasil e por que, muitas vezes, o acesso e o entendimento caminham em ritmos diferentes. ![]()